Fibromialgia

Você pode ainda sentir dor e estar muito melhor da fibromialgia

Tênis, caderno e objetos de rotina próximos à porta de casa

Esperar a dor passar para voltar a viver pode ser uma das coisas que mantêm a dor.

Sei que a frase soa estranha para quem já tentou de tudo, e ela não tem a ver com você estar fazendo algo errado. Essa espera, que parece tão lógica, conversa diretamente com o mecanismo que sustenta a fibromialgia.

Se você já passou por vários tratamentos, é possível que alguns tenham funcionado mais do que pareceu na época. Ao longo do texto explico por quê, e também por que o próximo passo raramente é só trocar de remédio.

Primeiro a dor, depois a vida

Quase todo mundo segue essa sequência: controlar a dor e só então retomar a vida. Faz sentido, ninguém quer passar o dia com dor.

Então você testa um remédio e espera. A dor cede um pouco, mas não o bastante. Você conclui que não funcionou, troca de remédio e volta a esperar. Nesse meio-tempo a vida vai encolhendo: você se move menos, sai menos e passa a reparar em cada sinal do corpo. "Quanto está doendo hoje?" vira a primeira pergunta do dia. Parece prudência, mas na fibromialgia essa espera pode acabar alimentando a dor.

Mulher saindo de casa para caminhar em uma rua residencial

Por que a fibromialgia não aparece nos exames?

Na fibromialgia a dor não vem de lesão. Ela vem de um sistema de alarme que ficou sensível demais, dispara com estímulos que antes passariam despercebidos e demora a desligar. O nome técnico é dor nociplástica. A dor é real; o que mudou foi a forma como o corpo processa os sinais.

Esse alarme tem uma espécie de regulador de volume. Sono ruim, estresse, medo, inatividade e atenção constante a ameaças aumentam esse volume em qualquer pessoa, porque atuam sobre os circuitos neurológicos que modulam a dor.

Agora pense de novo na espera. Movimento reduzido, vigilância sobre cada pontada, medo de piorar, frustração com cada tratamento que não zerou a dor: tudo isso sinaliza ao sistema nervoso que existe perigo e que o alarme deve continuar ligado. Você não provocou esse processo. Entendê-lo, porém, abre formas de tratar que o remédio sozinho não alcança.

Exercício piora a fibromialgia?

Quando você torce o tornozelo, a dor protege um tecido machucado. Na fibromialgia, ela não está avisando que algo se machucou. Se você caminha e no dia seguinte sente dor, o mais provável é que o alarme sensível tenha disparado.

Por isso dá para se mover com alguma dor, em doses que o corpo tolere, aumentando aos poucos, sem ignorar os sinais nem passar do limite. É assim que o sistema nervoso vai reaprendendo que aquele movimento é seguro.

O exercício gradual está entre as intervenções com recomendação mais forte nas diretrizes internacionais para fibromialgia, inclusive com respaldo superior ao de muitas estratégias medicamentosas.

A melhora costuma vir em outra ordem

Na prática clínica, muitas pessoas percebem primeiro mudanças no sono, na energia e no que conseguem voltar a fazer.

A dor, quando diminui, diminui depois, e muitas vezes não chega a zero. Nos estudos sobre dor crônica, uma redução de cerca de 30% já conta como melhora clinicamente importante. Essa diferença pode separar um dia na cama de um dia de trabalho.

A nota da dor é uma régua ruim para acompanhar o tratamento: ela mostra justamente o que muda por último. Ajuda mais se perguntar o que você voltou a fazer nos últimos meses, quanto tempo as crises têm durado e quantas decisões a dor tomou por você nesta semana. Se essas respostas melhoraram, você melhorou, ainda que continue sentindo dor.

Por que tantos tratamentos parecem falhar?

Alguns falham de fato. Outros são abandonados cedo porque foram julgados só pela nota da dor, ou porque vieram isolados: remédio sem exercício, sem atenção ao sono, sem ninguém explicando o que está acontecendo e sem acompanhamento para ajustar o plano.

A fibromialgia costuma responder a um plano que combina medicamento quando indicado, exercício dosado, cuidado com o sono e com a saúde mental e, em alguns casos, cannabis medicinal. Esse plano precisa ser revisado ao longo do tempo, com metas que façam sentido para a sua vida. Desconfie de quem promete zerar sua dor, porque essa promessa reforça a mesma expectativa que mantém muita gente presa.

Conteúdos relacionados

Já tentou diferentes tratamentos e ainda sente que falta uma direção?

Se você convive com fibromialgia e ainda tem dificuldade para entender o que priorizar no tratamento, conheça como funciona minha avaliação e acompanhamento.

Conhecer o atendimento para fibromialgia